Autora

É uma voz que insistentemente me diz: “existe luz lá fora”...

Renata Guimarães

____Embora pareça senso comum, as emoções são muito subjetivas e por isso, únicas. Desde de que me vi pela primeira vez como ser humano, foi diante de textos e a escrita como forma de desabafo, intuição poética e alguns arranhados de histórias aleatórias.
____As primeiras leituras de que me recordo são de livros enormes de uma coleção de enciclopédias compradas pelo meu pai. Sim, eu lia itens enciclopédicos. Era uma grande sensação quando me era permitido pegar aqueles livros grandes, pesados, de um vermelho quase aveludado e os títulos grafados em dourado. Lá estava o mundo e eu diante dele, tão pequenina.
____Depois disso, veio o teatro e as mais variadas obras. Shakespeare? Ual! “Quem era eu para ler esse cara?” Bom, era uma menina de 14 anos, estudante que fazia teatro em núcleos da prefeitura e que já tinha lido não só Shakespeare, mas também Molliere, Monteiro Lobato, Tennessee Williams, por quem me apaixonei diante de Blanche Dubois.
____Lembro-me de ter lido essa peça em algumas horas. “Minha mãe tinha saído de casa e ido ao mercado. Eu peguei o livro, sentei-me numa cadeira na cozinha, elevei as pernas e as pousei em outra cadeira à frente e ali fiquei.
____Tomei os dois litros do suco que dona Tânia tinha feito para o almoço. Quando minha mãe chegou, eu estava chorando, sentada no mesmo lugar, sem sequer sentir o corpo e terminando de ler a última cena.
____Ela já ia ensaiando uma bronca, olhava para mim, depois para a jarra de suco vazia. Era como se um alienígena tivesse nos visitado e eu o teria recepcionado sozinha. Por fim, acabou perguntando se era coisa da escola. Qual era o motivo de tantas lágrimas... chegou a dizer que queria saber que livro era aquele, mas não me lembro se ela chegou a ler.”
____A questão ali não eram as lágrimas, mas o fato de eu nunca ter imaginado que um homem pudesse captar a essência das almas humanas atormentadas, pela vida indesejada e tantas outras coisas mais. Paixão total!
____Agora, poderiam vir todas as broncas do mundo, meu coração estava tão repleto de sensações boas e enriquecedoras que eram só minhas, de mais ninguém. Eu poderia expressá-las, todas, quando entrasse em cena, diante daqueles que desejassem dividir algo comigo, enfim multiplicar.
____O teatro foi mesmo um mar de histórias que se confundem com a minha própria história. Até hoje ouço as ondas virem e baterem em mim de uma forma que não me permitem ficar parada.
____Então, veio a faculdade de Letras e passei a adorar os livros técnicos, porque eles explicavam que tudo que eu lia, agia em mim de uma forma porque foram escritos com essa intenção e a partir daí, não conseguia escrever mais nada e toda leitura passou a ser meio técnica. Pena. Passei a analisar textos e já não tinham mais o mesmo brilho. Tinham técnica e adequação vocabular. Graças a Deus durou pouco.
____O tempo passou e de tudo que vivi, restaram as ondas que ainda batem e me fazem ouvir o mar em quase todas as coisas que faço. Hoje, adoro escrever poemas e outros arranhões narrativos. Amo dramatizar e trabalhar produção de texto em sala de aula. Acredito que os alunos, de uma forma geral, passam a gostar de escrever porque sou tão apaixonada que eles fingem que gostam só para eu não ficar chateada.
“A literatura infantil entrou na minha vida como disciplina do curso de especialização em literatura da Universidade Católica de Santos, mas o que, a princípio, seria uma disciplina obrigatória, passou a ser paixão. Comecei a ler textos infantis que eu deveria ter lido na época das enciclopédias e quase sentia vergonha ao comprar dezenas de livros para ler, fruir e conhecer cada vez mais. Isso ainda não parou e na realidade, acho que há livros infantis muito mais ricos que romances gigantescos ganhadores de estrelas em jornais e revistas.”
____A você, agradeço a presença e aproveito para convidar a dividir com os leitores Sol de brincadeira a sua experiência com a leitura.

____Muito obrigada
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